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Quando os números revelam as barreiras

O Brasil tem cerca de 14,4 milhões de pessoas com deficiência, o equivalente a 7,3% da população com dois anos ou mais de idade. O dado faz parte da segunda edição do informativo Pessoas com Deficiência e as Desigualdades Sociais no Brasil, publicado pelo IBGE em 2026, com base principalmente no Censo Demográfico de 2022. Mais do que quantificar uma parcela da população, o estudo mostra onde estão as desigualdades e como elas atravessam o trabalho, a educação, a renda, a mobilidade, a moradia, a vida familiar e a participação política.

Os números confirmam algo que as pessoas com deficiência e suas famílias conhecem na prática: a deficiência, sozinha, não explica a exclusão. A desigualdade aparece quando uma pessoa encontra uma calçada intransitável, uma escola sem recursos de acessibilidade, um processo seletivo baseado em preconceitos, uma comunicação que não pode ser compreendida ou um serviço público que não está preparado para atendê-la. Por isso, falar de inclusão exige olhar para as barreiras criadas ou mantidas pela sociedade.

No mercado de trabalho, a distância é evidente. Em 2022, o nível de ocupação das pessoas com deficiência era de 29%, enquanto entre as pessoas sem deficiência chegava a 55,8%. A diferença foi de 26,8 pontos percentuais. Entre quem estava trabalhando, 57,9% das pessoas com deficiência contribuíam para a Previdência Social, ante 67,7% das pessoas sem deficiência. Também havia desigualdade na remuneração: as pessoas com deficiência recebiam, em média, R$ 2.053 por mês, valor correspondente a aproximadamente 71% do rendimento médio de R$ 2.890 recebido pelas pessoas sem deficiência.

Esses resultados nos obrigam a questionar o significado de contratar. A inclusão não se encerra com a admissão de uma pessoa para cumprir uma obrigação legal. Ela depende de acessibilidade no ambiente, tecnologia adequada, comunicação clara, oportunidades de desenvolvimento e uma equipe preparada para combater o capacitismo. Sem essas condições, a contratação pode existir no papel, mas a participação plena continua distante.

Na educação, a desigualdade começa cedo e deixa marcas profundas. Entre os jovens de 15 a 29 anos, a taxa de analfabetismo era de 12,2% para as pessoas com deficiência e de 1% para aquelas sem deficiência. Não se trata de falta de capacidade para aprender. Esse contraste revela trajetórias atravessadas por barreiras de acesso, permanência, comunicação e aprendizagem. Quando a escola não acolhe as diferentes formas de perceber, compreender, comunicar-se e participar, o direito à educação não se realiza em igualdade de condições.

O estudo também alcança a vida dentro de casa. Entre crianças e adolescentes de 2 a 17 anos com deficiência, 30,1% moravam somente com a mãe ou madrasta. Entre aqueles sem deficiência, a proporção era de 21,5%. Nos domicílios situados abaixo da linha de pobreza, o percentual chegava a 35,1% entre crianças e adolescentes com deficiência. O próprio informativo observa que a maior carga de cuidados pode contribuir para esse cenário e mostra que mulheres que vivem com crianças com deficiência apresentam menor nível de ocupação. Apoiar a pessoa com deficiência também exige reconhecer quem cuida, criar redes de suporte e garantir que as famílias tenham acesso a serviços e informações.

Há ainda um alerta importante sobre o papel dos municípios. Segundo o levantamento, em 2024, 94,9% das pessoas com deficiência viviam em municípios cujas páginas eletrônicas ofereciam ao menos uma das características de acessibilidade investigadas. Entretanto, somente 4,7% viviam em municípios que apresentavam todas essas características. Isso demonstra que oferecer algum recurso é um começo, mas não assegura, por si só, acesso completo e autônomo aos serviços digitais.

Os dados são nacionais e não devem ser apresentados como se fossem um retrato específico de Cabreúva. Eles podem, porém, orientar as perguntas que precisamos fazer em nossa cidade. Quantas pessoas com deficiência vivem aqui? Quais barreiras enfrentam para estudar, trabalhar, circular e utilizar os serviços públicos? As informações municipais são acessíveis? As famílias cuidadoras encontram apoio? As próprias pessoas com deficiência participam da construção das políticas que afetam sua vida? Sem escuta e diagnóstico local, as decisões correm o risco de não alcançar quem mais precisa.

A pesquisa do IBGE não apresenta somente percentuais. Ela mostra direitos que ainda não chegam a todas as pessoas em igualdade de condições. Cada diferença registrada representa oportunidades de estudo, trabalho, renda, autonomia e convivência que foram reduzidas por barreiras evitáveis. Transformar essa realidade depende de políticas públicas, compromisso das empresas e participação social. Também depende de ouvir quem vive a deficiência todos os dias. Os números apontam o caminho; cabe a nós decidir se permanecerão como estatística ou se servirão de base para mudanças concretas.

Fonte: IBGE. Pessoas com Deficiência e as Desigualdades Sociais no Brasil, 2ª edição, 2026. Dados principalmente do Censo Demográfico 2022.